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Na linha de frente do mundo árabe, as mulheres
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12/3/2012
Por Soraya
Misleh, do ICArabe
Diferentemente do
que se costuma difundir, no mundo árabe, o protagonismo feminino nos campos
de batalha e em diversas áreas do conhecimento é histórico.
As revoluções no
mundo árabe vêm derrubando não só ditaduras e trazendo à tona suas relações
com o império. Vêm também desconstruindo estereótipos. Entre eles, as tão
frequentes quanto equivocadas generalizações em relação às mulheres árabes.
No Brasil e em várias partes do globo, a imagem transmitida por agências de
notícias internacionais e mídias corporativas é de um grupo absolutamente
homogêneo. São mulheres cobertas com véus, submissas, que escondem uma
sensualidade intrínseca por trás de suas pesadas roupas, normalmente de cor
escura. O colorido da diversificada e rica sociedade árabe é deliberadamente
omitido.
O primeiro mito que
as revoluções que tiveram início na Tunísia em fins de 2010 e se alastraram
por diversos países colocou por terra foi de que essas mulheres jamais se
colocariam na linha de frente das batalhas por direitos. Os levantes que derrubaram
até agora quatro ditaduras – e continuam em curso – demonstraram que seu
protagonismo foi e tem sido fundamental para pôr fim a regimes opressores. No
Egito, é comum a cena de milhares de mulheres na Praça Tahrir. Ao se congelar
essa imagem, outro mito é desfeito: o de que todas elas usam véus. O senso
comum, fundamentado na ideia de que toda árabe é muçulmana, é desafiado (como
se não houvesse outras religiões ou nenhuma fé no seio dessas sociedades e
todas as islâmicas usassem obrigatoriamente véu, o que também é uma falácia).
Há mulheres cobertas, descobertas, com roupas de todo tipo, como em qualquer
outra sociedade.
A ideia de que as
muçulmanas estão à margem desses processos também é desmontada no curso das
revoluções. A egípcia feminista Nawal El Saadawi, que pôde ser vista ao lado
de outras lutadoras nas grandes manifestações na Praça Tahrir, explica em
seus escritos que o Islã chega a ser mais suave no que se refere às
diferenças de gênero. O que ocorre é que a religião tem sido usada como meio
de dominação, mediante distintas interpretações, de modo a favorecer o grupo
político hegemônico e manter a opressão de classe.
O que ainda está por
ser desconstruído é a ideia de que a participação feminina em revoluções no
mundo árabe é novidade. Quem elucida esse tema é Nawal. Em seu único livro
traduzido para o português, “A face oculta de Eva – as mulheres do mundo
árabe”, ela salienta: “A história tem descrito, com falsidade, muitos dos
fatos relacionados ao sexo feminino. As mulheres árabes não são mentalmente
deficientes, como os homens e a história, escrita por eles, tendem a afirmar,
tampouco são frágeis e passivas. Ao contrário, as árabes mostraram
resistência ao sistema patriarcal centenas de anos antes que as americanas e
europeias se lançassem a essas mesmas lutas.” Sistema esse que passou a
predominar a partir do surgimento da noção de propriedade privada e divisão
de classes, como ensina Nawal em sua obra. Em tempos ancestrais, em que
predominava o nomadismo e a agricultura de subsistência, as mulheres detinham
a igualdade em assuntos sociais, econômicos e na esfera política.
Destituídas dessa posição e relegadas às camadas sociais inferiores, as
mulheres da região, assim como em outras partes do globo, vêm assumindo a
linha de frente na oposição a esse status quo. Assim, ao longo dos séculos,
têm desempenhado papel fundamental nas lutas contra o colonialismo, a dominação,
por direitos, justiça. Não poderia ser diferente: acabar com a desigualdade
de gênero é bandeira crucial na transformação dessas sociedades. Nesse ponto,
Nawal é categórica: “Enquanto os assuntos do Estado ou do poder
administrativo forem delegados à mulher dentro de uma estrutura social de
classes, baseada no capitalismo e no sistema familiar patriarcal, homens e
mulheres hão de permanecer vítimas da exploração.” Mudar esse estado de
coisas mantém-se na ordem do dia de muitas mulheres.
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quinta-feira, 7 de junho de 2012
[Notícias 2] CSW
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